28 dezembro 2008

O Hipotauro

A trinta quilómetros de Meca existe um labirinto protegido por sete pássaros simbólicos.
Ao centro está a estátua de um gigante Hipotauro esculpido em gelo.
Todos os dias pouco depois do meio-dia o Hipotauro começa a uivar uma música muito triste em antigo aramaico. Embora ninguém perceba o que canta o hipotauro, todos sabem que é algo muito triste. O gemido do hipotauro ouve-se bem longe e chega a Meca. Esta triste música impõe o recolher obrigatório. O hipotauro chora e as ruas ficam perigosas.
Dos seus olhitos de gelo pingam então lágrimas de mel e assim que o seu triste uivo cessa, o Hipotauro começa a derreter rapidamente, pingando para o chão sob o forte sol do meio-dia, deste degelo resulta uma água sagrada que inunda todo labirinto. Podia-se dizer que mais do que físico este degelo é voluntariamente acelerado pelo Hipotauro na pressa de sonhar com a segunda Bagdade. Mesmo no deserto o sol não tem força suficiente para derreter rapidamente tão grande estátua.
Aparecem então os funcionários do Simbólico, que começam a trabalhar com uma dedicação invejável, recolhendo toda a água para voltar a encher a forma do hipotauro.
O Hipotauro é então carregado em animado cortejo até ao sarcófago-frigorífico, aí repousa um leve sono. Diz-se que enquanto gela o hipotauro sonha com a Bagdade celeste, cidade flutuante no ar envolta numa nuvem de ópio onde as leiteiras levam o leite ao seu destino. Onde as ambulâncias servem para levar o leite ao seu destino e onde os carros funerários e os tanques servem para levar o leite ao seu destino.
O Hipotauro de sonhos utópicos gela, e ao gelar os seus sonhos ficam mais pesados e reais.
Na sua forma gelada ninguém sabe o que sonha.

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