O RoEntão, ele deu-me os seus olhos, num abraço muito forte.
Olhos negros de breu, raspando os meus.
Enrolou-se no seu ninho, escavado no rubro da terra que a noite banhara de negro.
E aí, olhou, lenta, enamoradamente o extenso céu da cidade vermelha.
Os pés descalços pendiam fora do buraco. Brincavam dedos nus no ar.
- Mi conta uma história… - pediu-me.
E eu enrosquei-me no pequeno ninho do menino e contei a mais bela história
que me lembrei. Uma história de mar escuro e verde, gelo glaciar,
de pés pisando aguarelas azuis, brancas e roxas … história de focas,
de ursos brancos caminhando pesada e lentamente sobre o alvo chão…
De baleias brancas e pinguins.
Tudo lhe parecia fantástico e misterioso
De casas feitas de gelo…
- Iguau à barraca de madeira minha e de minha mãe?
- Sim, como a tua barraca de madeira e a da tua mãe.
As suas mãos ásperas (ainda as sinto, arranhando a pele e o coração),
aqueceram-se nas minhas e pediu-me:
- Dorme comigo hoje, faz de minha mãe.
Disse que sim, mas não dormi.
A história que os seus olhos e corpo me contavam pesava-me as pálpebras.
E lentamente a fogueira que iluminava a noite apagou-se. Kapikanga, Kapiqueno, Moisés e tantos outros foram dormindo.
Meninos de rua, de rua, não, de cidade.
Luanda é gigantesca, não dorme, está sempre de vigia,
abrigando os poucos mantimentos que guarda, as roupas
que cobrem os corpos e as sapatilhas Nike sujas e rotas que alguns pés conservam.
Lembrei-me também do Makiesse, do Damião e do Pedrito,
dormindo nas carrinhas sem porta que a noite abriga.
E… lentamente…
O Sol vermelho, maior tesouro da cidade, apareceu,
como sempre aparece, bola de sangue suspensa na abobada celeste.
E os meninos acordam, saindo dos buracos do chão,
das carrinhas sem porta das ruas, das casas de cartão,
com plantas encostadas aos colchões e posters da Shakira
penduradas nas paredes.
E mais um dia recomeça.
Mais um dia percorrem as ruas da cidade, brincam
ao faz de conta: “perdem pés”, ganham pernas de pau
que lhes oferecem almoço; roubam cadeados e tapetes,
vendendo-os como novos na avenida principal.
E dançando pelas ruas, percorro com eles Luanda.
Cidade magnética esta. Ritmada, de vida intensa.
Amo as mulheres e seus lenços vermelhos e verdes,
com Jesus estampado nos tecidos. Amo as meninas de tranças
de contas azuis e rosas, amo as cabras passeando pelas lixeiras
a céu aberto e os cães de rua acompanhando, fielmente,
as crianças de todas as idades, seus companheiros.
Não, não sei se amo se apaixono.
Esta cidade abriu-me uma ferida que apaixona.
Pois ferida que apaixona não é ferida que ama.
A ferida que apaixona é forte e intensa, rasga bem lá no fundo,
é doce e dolorosa. E não se esquece, marca.
Mas a aventura aí começou, naquele local onde Deus e
o Diabo foram semeados, tal como sol e trovoada.
Eu e o menino apanhamos um candongueiro (táxi azul de Luanda)
e voamos para fora da cidade vermelha.
Viajamos pelas estradas de janelas abertas para as árvores
gordas daquele país: os embondeiros, para os macacos que
balanceiam nos ramos e os colibris que cantam e encantam
com o seu azul-turquesa.
O amarelo acre dos campos sem fim queimava os meus olhos.
Cansava a secura que cortava a imagem reflectida no vidro do táxi.
Foi então que ouvimos o som do mar. Belo som do mar.
Longínquo como se dançasse rodopiando num búzio.
Embriagados, mergulhados naquele som entramos na densidade dos campos de trigo. Quilómetros e quilómetros de cereais eram recurtados pelo jipe azul, desenhando o nosso percursso no áureo da planície.
Migalhas desfaziam-se no ar, como pó de estrelas, passeando, vaidosas, dando viravoltas e reviravoltas, balouçando seu traje, como rapariga nova de vestido novo por estrear.
E aí pedi ao menino para me cantar sua canção…
Ele abriu seu sorriso enorme, branco, na pele muito negra. Sorriso de luz, que só as crianças possuem, mas o das africanas é ainda maior, porque convivem, todo o dia, com a nudez do mundo.
“Toda a criança do mundo
Toda ela conhece o profundo
Criança, criança, criança
Entra no coração estrangeiro
Criança
Seu nome mais lindo
Trazendo sua nobreza,
Aproveita seu nome,criança
Qui educa à pessoa do mundo
Qui digam a toda a genti do mundo
Qui não há vida sem amô
Qui não, qui não
Qui não há vida sem amô”
Embalados na voz do menino fomos, eu e o motorista, nos perdendo naquele campo amarelado. “Qui não há vida sem amo” frase embriagando e entontecendo nosso olhar, os nossos ouvidos, os nossos sentidos, fazendo-nos esqueçer as coisas da terra.
Chegamos a um areal extenso, uma praia sem começo nem fim. Areal terminando num mar de azul líquido, reflectindo a abobada celeste. Aí, um navio estancara. Navio com vestes rotas, esburacadas. Navio ancião, contando a história do oceano depois de anos e anos balançando nas suas águas.
E então duas crianças apareceram. Primeiro, dois pontos negros, depois, ganhando pernas e braços, tronco e cabeça. Chegaram, despiram-se e nus, quebraram o lençol das águas do mar em mil estilhaços, tal e qual vidro partido por rocha negra.
E nós imitamo-los e entregamo-nos ao conforto das águas.
Nadamos durante horas e horas e a nossa intimidade foi-se perdendo. As águas contaram as histórias de cada um, revelando, sem piedade, tudo o que cada um de nós tinha de mais secreto.
Os meninos, de aldeia de pescadores, conheciam toda a areia daquela praia. A camisola e os calções que traziam no corpo, rasgada mas de cores fortes e vivas, eram o único par de roupa que possuíam. Mas amavam-no e zelavam por ele com todo carinho e preocupação que se tem por filho único. Quando se sujava, punham-na do avesso e exibiam-na como roupa nova.
Comiam o peixe que pescavam, nos delgados barcos, com os pais.
Tímidos, envergonhados, como gatos selvagens, mesmo depois da invasão das águas, ainda nos olhavam desconfiados.
04 janeiro 2009
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